Brasília – Com uma única passagem pelo setor privado, como diretor de políticas públicas do WhatsApp, da Meta, o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, de 41 anos, era a carta na manga esperada para substituir Fernando Haddad à frente da pasta mais temida da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Ele também é considerado “02” (número dois na hierarquia, abaixo somente do ministro) ideal para assumir a missão, sem o ônus ou pressão, de propor medidas estruturais, entrar em embates políticos internos ou causar problemas para o governo em um ano eleitoral.
É o que avaliam fontes consultadas pelo NeoFeed, após o anúncio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta quinta-feira, 19 de março, de que Durigan irá trocar o posto de secretário-executivo da pasta para assumir o cargo de ministro da Fazenda, no lugar de Haddad, que vai se candidatar ao governo de São Paulo pelo PT.
Clássico exemplo de um “ministro-tampão”, apelido dado em Brasília para secretários que geralmente sempre assumem um ministério no último ano de um governo às vésperas de eleições, Durigan é visto como um aliado de Lula que vai conduzir pautas em andamento, como a regulamentação da reforma tributária.
E, no máximo, se posicionar em relação ao fim da escala de trabalho 6x1, tema polêmico que já enfrenta dificuldades no Congresso e pode empacar em meio ao calendário eleitoral.
“Ele não vai entrar em polêmica, vai tocar o dia a dia sem inventar moda, nem cometer nenhum deslize”, diz uma fonte próxima a Durigan. "Ele era 02; o 01 é um ser político."
Só o tempo dirá. Por outro lado, fontes do meio empresarial e do meio político da capital federal analisam como improvável que Durigan tenha o perfil mais político, com casca “político-partidária”, para seguir como ministro em um eventual quarto mandato do presidente Lula, em caso reeleição. “Zero chances neste momento”, diz uma fonte.
Uma fonte do Ministério da Fazenda pondera, no entanto, que a gestão de Durigan não será no estilo “mandato-tampão”, apenas para dar continuidade ao estilo Haddad.
Ainda que a agenda mais pesada já tenha passado (tributária, arcabouço), o novo ministro e sua equipe terão ainda como missões neste ano as discussões sobre diversos temas.
Entre eles, a aprovação de um projeto de lei sobre o Redata (programa de incentivos fiscais para o setor de datacenters); a regulação das bigtechs e agenda ambiental do governo (leilões do Ecoinvest, fundo TFFF, mercado de carbono, etc).
“A questão fiscal é uma preocupação principal nossa em ano eleitoral. E dá para preparar o terreno para um possível ano que vem”, diz a fonte. “A linha do Haddad será a mesma agora”.
Esse interlocutor lembra que Durigan ainda teve uma experiência “fundamental”, na Casa Civil no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), cujo objetivo era o de fazer a articulação política de projetos de interesse do Executivo não só com o Congresso mas dentro do próprio governo. Trajetória que o habilitou para as negociações no Congresso.
Advogado de formação, com carreira mais frequente na vida pública (Prefeitura de São Paulo na gestão de Haddad; Advocacia-Geral da União (AGU), Casa Civil e Fazenda em governos petistas), Durigan é visto como um técnico alinhado à agenda desenvolvimentista do governo Lula, mas não chega a ser um militante petista, avaliam pessoas que o conhecem e se relacionam com ele em Brasília.
“É um cão de guarda da agenda do Haddad”, diz uma fonte do mercado financeiro, que já participou de diversas reuniões com Durigan, em sua época de secretário-executivo.
Aliás, Durigan é bem quisto no mercado financeiro, como uma pessoa mais “aberta” para ouvir e receber executivos de bancos e fundos em comparação a Haddad, por exemplo. O fato de o novo ministro não ser político também o facilita nesse sentido, de acordo com fontes desse setor.
No geral, é tido como cordial e paciente, com traquejo político (apesar de não ser um político de ofício) até mesmo na articulação com ministros do governo com quem Haddad tinha confrontos, como Glieisi Hoffmann (ainda ministra de Relações Institucionais).
Com experiência já nas sempre delicadas e sensíveis batalhas com o Congresso em defesa de temas caros ao governo, Durigan é tido como um técnico de governo que soube se segurar firme em debates com parlamentares que eram cruciais para a equipe econômica, como a reforma tributária.
Uma fonte lembra que, dois meses após assumir como secretário-executivo da Fazenda no lugar de Gabriel Galípolo, que saiu para se tornar diretor do Banco Central, Durigan já teve que entrar na articulação pela aprovação do arcabouço fiscal, em 2023 – antes, Galípolo era tido como braço-direito de Haddad na Fazenda, posto assumido tempos depois por Durigan.
Agora, porém, num momento em que o arcabouço sofre pressões para ser revisto ou deixar de existir nas bases atuais, fontes do mercado não enxergam que ele seria o quadro de político “cascudo” da preferência de Lula para travar debates como este, na leitura de fontes de Brasília.
Entretanto, Durigan é conhecido pelo grande poder de negociação, em especial com o Congresso Nacional. Ou seja, sua nomeação para substituir Haddad foi recebida da mesma forma de quando Durigan foi chamado para ocupar o lugar de Galípolo.
Na verdade, seu conhecido perfil de articulador pode ser um trunfo do governo num ano eleitoral – e com várias pendências no Legislativo, como o fim da jornada 6 por 1, a reforma de encargos sobre a folha de pagamentos, a revisão de benefícios sociais, a montagem e votação do Orçamento de 2027 e vários itens pendentes da reforma tributária, como a regulamentação do imposto seletivo, chamado de imposto do pecado.
Assim, ao assumir um mandato-tampão de ministro da Fazenda de poucos meses, a atuação de Durigan seria mais importante como articulador do que como formulador de política econômica.
Desafios complexos
Economistas e analistas ouvidos pelo NeoFeed apontaram os desafios dele à frente da pasta. O fato de Durigan não ter formação em economia, aparentemente, não deve interferir em sua atuação.
O economista José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA-USP e com ampla experiência no mercado financeiro, por exemplo, afirma que não é preciso ser economista para chefiar – e bem - a pasta, citando os exemplos de Dilson Funaro (no governo Sarney) e Antonio Palocci (no primeiro governo Lula).
“O essencial é organizar uma equipe competente, ter capacidade de diálogo, bom acesso ao presidente e respaldo partidário”, afirma.
Embora pondere que Durigan não tem essas características na mesma medida que os exemplos citados, Gonçalves afirma que o novo ministro é adequado para o posto por sua capacidade de negociação e por herdar uma equipe coesa. Segundo ele, o principal desafio do mandato-tampão do novo ministro será a gestão orçamentária para o próximo ano.
Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, o conjunto de ações aprovadas na gestão Haddad teve em Durigan papel central. “O secretário-executivo é uma espécie de ministro ‘para dentro’, de modo que as coisas só andam, de fato, com um bom trabalho nessa frente”, diz.
Por isso, considera adequada a escolha de Lula. “Estamos falando de um período de transição e a perspectiva de manutenção da mesma toada de Haddad é boa; afinal, foi uma gestão com muitas entregas.”
Especialistas das áreas tributária e trabalhista, porém, preveem dificuldades e forte necessidade de articulação política. João Henrique Gasparino, diretor executivo da consultoria tributária Nimbus Tax, vê em Durigan continuidade da agenda econômica.
“Do ponto de vista empresarial, isso tende a significar a manutenção de uma política marcada por aumento de carga, expansão das exigências regulatórias e uma postura mais dura do Fisco”, afirma.
Raquel Rizzardi, coordenadora trabalhista do escritório Guarnera Advogados, avalia que o avanço dessa agenda será limitado no curto prazo, devido ao mandato-tampão e ao ambiente eleitoral, mas exigirá alta capacidade de articulação.
“O debate sobre o fim da jornada 6x1 e a revisão de benefícios sociais envolve temas de alta sensibilidade, com impactos diretos nas relações de trabalho, nos custos empresariais e na previsibilidade operacional”, afirma.
Já a revisão de benefícios sociais enfrenta um desafio ainda maior. "Qualquer tentativa de ajuste, mesmo que técnica, corre o risco de ser percebida como redução de direitos, o que amplia significativamente a resistência política, sobretudo em ano eleitoral", diz Rizzardi.



