Entenda como o país pretende se consolidar como eixo de segurança no continente europeuEntenda como o país pretende se consolidar como eixo de segurança no continente europeu

França busca protagonismo como potência protetora da Europa

2026/03/14 19:00
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O presidente da França, Emmanuel Macron (Renascimento, centro), reforçou o desenvolvimento da capacidade nuclear do país e a ampliação do papel francês como garantidor da segurança europeia. Ao apostar no fortalecimento do arsenal estratégico, Macron coloca a França no centro do debate sobre a construção de um eixo próprio de defesa no continente, mas também eleva as tensões em um cenário internacional já marcado por instabilidade.

“Um reforço do nosso arsenal é indispensável”, afirmou o presidente francês em pronunciamento na base de submarinos de Île Longue, na Bretanha, em 2 de março. No mesmo dia, anunciou a construção de um novo submarino nuclear previsto para ser lançado em 2036, chamado “L’Invincible”.

Em entrevista ao Poder360, a professora de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF (Universidade Federal Fluminense), Raquel dos Santos Missagia, afirmou que o movimento francês representa sobretudo uma intensificação de uma tradição estratégica:

“O atual movimento pode ser percebido como uma intensificação de uma tradição estratégica francesa. Desde Charles de Gaulle, a França busca manter autonomia estratégica, especialmente na área nuclear e militar, preservando sua independência mesmo após a criação da Otan”, declarou Missagia.

A França testou sua 1ª arma nuclear em 1960 e hoje é a única potência nuclear da União Europeia depois da saída do Reino Unido do bloco em 2020, com o Brexit.

Segundo o Sipri (Stockholm International Peace Research Institute), a França tem cerca de 290 ogivas nucleares operacionais, distribuídas principalmente entre submarinos lançadores de mísseis balísticos e forças aéreas estratégicas. O país tem o 4º maior arsenal nuclear do mundo, atrás só de Rússia, Estados Unidos e China.

A organização Iniciativa de Ameaça Nuclear estima que os maiores estoques nucleares são:

  • Rússia – 5.449 ogivas
  • EUA – 3.748 ogivas
  • China – 600 ogivas

O movimento de Macron se dá durante o aumento das tensões geopolíticas, marcado pela guerra na Ucrânia, pela escalada militar envolvendo o Irã e pelas incertezas sobre o grau de comprometimento dos Estados Unidos com a segurança europeia no longo prazo.

Em discurso on-line aos franceses transmitido em 3 de março, Macron disse que “nunca hesitará” em proteger os “interesses vitais” do país. A fala caracteriza a dissuasão nuclear como um instrumento defensivo destinado a garantir a soberania e a liberdade de ação da França.

Apesar do reforço das capacidades nucleares europeias, a professora de Relações Internacionais declarou que a estrutura de segurança do continente continua baseada na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) –aliança militar ocidental liderada pelos EUA– e que a dissuasão nuclear europeia “segue sendo importante, mas ainda ocupa um papel secundário”, já que “não tem capacidade para substituir a estrutura estratégica da Otan”.

Segundo Raquel Missagia, existe uma complementaridade estratégica que atua em 3 níveis:

“No 1º nível, a Otan, por meio do arsenal dos Estados Unidos, assegura a segurança estratégica global da Europa. No 2º nível, França e Reino Unido oferecem uma capacidade de dissuasão nuclear autônoma e complementar. Por fim, o 3º nível é composto pelas capacidades militares convencionais dos países europeus”, disse a especialista.

Cooperação com Alemanha e Reino Unido

Os 3 países vão desenvolver em conjunto projetos de mísseis de longo alcance como parte de um esforço europeu mais amplo de dissuasão e defesa.

A colaboração integra a chamada Abordagem Europeia de Ataque de Longo Alcance e inclui a Itália, Polônia e Suécia. O projeto foi iniciado em 2024 para ampliar a capacidade de resposta militar europeia com sistemas de mísseis capazes de atingir alvos a grandes distâncias, reduzindo a dependência tecnológica e estratégica dos Estados Unidos.

A professora de Relações Internacionais afirmou que, apesar da decisão final sobre o uso de armas nucleares permanecer sob responsabilidade do presidente francês, “a iniciativa fortalece a integração estratégica e o planejamento conjunto, sem configurar um sistema nuclear compartilhado”.

Desdobramentos futuros

A ampliação da capacidade nuclear francesa também levanta preocupações sobre os impactos estratégicos no sistema internacional. Missagia declarou que a expansão de arsenais nucleares “sempre gera preocupações, pois amplia as possibilidades de uma espiral de desconfianças mútuas e reforça a centralidade das armas nucleares na política internacional”.

Além da dimensão militar, conflitos no Oriente Médio também podem gerar efeitos indiretos na política europeia, especialmente no debate sobre migração. A especialista avalia que eventuais escaladas militares na região tendem a provocar novos deslocamentos:

“Um conflito armado no Oriente Médio pode gerar novos fluxos migratórios em direção à Europa devido ao colapso econômico e humanitário regional, ao aumento dos deslocamentos internos que acabam se transformando em movimentos de migração internacional e ao redirecionamento de rotas migratórias pelo Mediterrâneo”, disse Raquel Missagia.

Na 3ª feira (10.mar), Macron afirmou que o país está “solidário com seus amigos e aliados na região diante de ataques com mísseis e drones” e que coordena esforços para proteger cerca de 400 mil cidadãos franceses que permanecem no Oriente Médio.


Esta reportagem foi produzida pela trainee em jornalismo do Poder360 Isadora Vila Nova sob supervisão do editor João Vitor Castro.

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