Do Império Persa à Revolução Islâmica de 1979, entenda os eventos que ajudaram a formar o Irã contemporâneoDo Império Persa à Revolução Islâmica de 1979, entenda os eventos que ajudaram a formar o Irã contemporâneo

Entenda como a antiga Pérsia se tornou o Irã atual

2026/03/14 19:00
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O Irã tem 91,6 milhões de habitantes e um PIB de US$ 475 bilhões em dados do Banco Mundial de 2024. É um país classificado como de renda média‑alta. Sua importância estratégica remonta à Antiguidade, quando impérios persas dominaram vastas regiões do Oriente Médio, do Mediterrâneo e da Ásia Central e moldaram a política, a cultura e as rotas comerciais da região.

Entenda como os séculos de história ajudaram a formar o Irã contemporâneo.

Quando o Irã era Pérsia

O território que hoje corresponde ao Irã foi um dos centros políticos mais importantes do Oriente Médio antigo. Ali surgiram alguns dos primeiros Estados organizados da região e o Império Aquemênida, uma das maiores monarquias Imperiais da Antiguidade.

Para a professora de Estudos da Linguagem da UFF (Universidade Federal Fluminense) Muna Omran, a força do império se devia, em muito, à sua localização. “O território tinha diversas rotas comerciais, facilitadas pela localização geográfica do Irã. Elas tornavam aquele território um elo vital na Rota da Seda, e permitiam o Irã controlar e lucrar com o fluxo de bens, como especiarias, seda e ideias, entre o Oriente e o Ocidente. Essa rota ainda está no radar dos últimos acontecimentos“, afirma. 

No século 5 a.C., o império controlava um território que ia da Índia ao Mediterrâneo e do Egito à Ásia Central. Dezenas de povos diferentes viviam sob a mesma administração.

Ao contrário de impérios anteriores da região, como assírios e babilônios, os governantes persas adotaram outra estratégia. Em vez de impor costumes locais, eles permitiam que os povos conquistados mantivessem suas religiões e tradições. Assim, conseguiram administrar um território enorme e culturalmente diverso.

De acordo com Omran, “as práticas culturais, como a literatura, arquitetura, religião e artes plásticas, foram o principal veículo para a criação e preservação de uma identidade nacional distinta, que sobreviveu a séculos de mudanças e invasões”. Na ciência, a professora também diz que “a sociedade persa antiga foi um centro de inovação, cujas invenções facilitaram a vida e o comércio. Sistemas de irrigação, universidades, escolas de medicina como a Academia de Gondesapur“.

Mais tarde, sob o governo de Dario 1º, o império ganhou uma estrutura administrativa mais definida. O território foi dividido em províncias chamadas satrapias, governadas por representantes do rei. 

A base desse poder estava na antiga Pérsia, uma região do sul do planalto iraniano conhecida pelos próprios persas como Parsa, correspondente à atual província de Fars. Foi ali que surgiu a dinastia aquemênida. No século 6 a.C., Ciro, o Grande, governante da cidade de Anshan, liderou uma revolta contra o domínio dos medos e assumiu o controle da região.

A partir daí, suas campanhas militares transformaram rapidamente um reino regional em um império continental. Em 539 a.C., Ciro conquistou a Babilônia, um dos centros políticos e culturais mais importantes do Oriente Médio no período. A conquista ficou marcada por uma política relativamente tolerante com os povos dominados, registrada, por exemplo, no chamado Cilindro de Ciro, um dos primeiros documentos de política imperial voltada à administração de diferentes povos.

Foram essas conquistas que levaram gregos e outros povos do Mediterrâneo a chamar o império de “Pérsia”, em referência ao povo que ocupava o centro do poder político. Com o tempo, o nome passou a ser usado no Ocidente para designar toda a região.

O domínio aquemênida terminou em 330 a.C., quando Alexandre, o Grande, derrotou o rei Dario 3º e incorporou o território ao seu império. Mesmo assim, a região continuou sendo um dos principais centros políticos do Oriente Médio. Nos séculos seguintes, dinastias como os partas e os sassânidas voltariam a governar grandes impérios a partir do planalto iraniano.

Quando a Pérsia virou Irã

No século 7, exércitos árabes muçulmanos conquistaram o território persa. A partir daí o islamismo começou a substituir gradualmente a antiga religião predominante na região, o zoroastrismo.

O árabe passou a ter grande influência cultural e religiosa, embora a língua persa tenha continuado sendo usada pela população local. Ao longo dos séculos seguintes a região passou por várias mudanças de poder.

No século 16 surgiu uma nova potência regional: a dinastia Safávida. Esse período foi decisivo porque os safávidas estabeleceram o islamismo xiita como religião oficial, algo que marcaria a identidade política e religiosa do país.

A partir desse momento, todas as principais dinastias que governaram o território iraniano passaram a ser muçulmanas xiitas.

É nesse contexto histórico que aparece a discussão sobre os nomes “Pérsia” e “Irã”. O termo Irã deriva de uma palavra antiga ligada aos povos arianos ou indo-iranianos e já era usado desde a Antiguidade. Já Pérsia surgiu como um nome utilizado principalmente por estrangeiros, derivado da região de Pars. 

Durante grande parte da história os 2 nomes foram usados de forma praticamente intercambiável. “Ao contrário do que muitos pensam, o nome Irã é anterior ao império de Ciro, fundador do Império Persa, e sempre foi utilizado”, afirma Omran.

A mudança oficial veio só no século 20. Em 1935, o xá (título designado aos reis do Irã) Reza Pahlavi pediu que governos estrangeiros passassem a usar Irã nas relações diplomáticas. O objetivo era adotar internacionalmente o nome já utilizado internamente e reforçar uma identidade nacional ligada aos povos iranianos, não só à antiga região persa. 

Desde então, Irã se tornou o nome oficial do país no cenário internacional. Já Pérsia continuou sendo usado sobretudo em contextos históricos e culturais, como ao se referir ao Império Persa, à arte persa ou à literatura produzida em língua persa.

A Revolução Iraniana

A Revolução Iraniana derrubou a monarquia imperial em 1979 e deu origem à República Islâmica. O país estava sob o governo do xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos e defensor de um projeto de modernização acelerada. Apesar do crescimento econômico em parte do período, o regime enfrentava críticas por autoritarismo, desigualdade social e repressão política.

Segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, o amplo descontentamento com o regime do xá reuniu diferentes setores da sociedade que tinham o mesmo objetivo: derrubar o governante. 

O regime de Mohammad Reza Pahlavi era percebido por muitos setores da sociedade como autoritário e excessivamente alinhado aos interesses dos EUA. O movimento revolucionário reuniu uma coalizão bastante diversa, que incluía clérigos xiitas, estudantes, intelectuais, setores da classe média urbana, trabalhadores, comerciantes tradicionais dos bazares e também grupos de esquerda e nacionalistas que se opunham à monarquia“, afirma. 

Parte da insatisfação vinha de décadas anteriores. Em 1953, o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh foi derrubado em um golpe apoiado por serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido, depois de nacionalizar a indústria petrolífera. O episódio reforçou entre muitos iranianos a ideia de que potências estrangeiras influenciavam diretamente a política do país.

Durante os anos 1970, a oposição ao regime cresceu. Partidos políticos eram restritos, e denúncias de censura e repressão eram frequentes. Nesse contexto ganhou destaque o líder religioso xiita Ruhollah Khomeini, exilado desde 1964 depois de criticar o xá. Mesmo fora do país, seus discursos circulavam clandestinamente no Irã e ajudavam a mobilizar a oposição.

Com o crescimento da crise política e sem conseguir controlar os protestos, o xá deixou o Irã em janeiro de 1979. Pouco depois, Khomeini retornou do exílio e passou a liderar o movimento revolucionário no país. Em 11 de fevereiro de 1979, as Forças Armadas anunciaram neutralidade no conflito político, o que abriu caminho para que os revolucionários assumissem o controle das principais instituições do Estado.

Depois da queda do governo, um referendo nacional aprovou a criação da República Islâmica. A nova constituição instituiu um sistema político baseado na liderança religiosa e no princípio do Velayat-e Faqih, que concede grande autoridade a um líder religioso supremo.

Rudzit afirma que o sistema político criado depois da Revolução de 1979 combina instituições republicanas com uma autoridade religiosa superior. “No topo está o líder supremo, principal autoridade do Estado e que exerce controle sobre áreas estratégicas como as Forças Armadas, a política externa, o Judiciário e os principais órgãos de supervisão política. O presidente, eleito por voto popular, chefia o governo e é responsável pela administração cotidiana do país, incluindo política econômica e gestão ministerial”, diz o especialista.  

Nos anos seguintes, o novo regime consolidou o poder, afastando grupos liberais e de esquerda que também haviam participado da revolução. Instituições religiosas passaram a ocupar posição central no Estado, e novas leis baseadas na interpretação islâmica influenciaram a política e a vida pública no país. A revolução mudou profundamente o sistema político iraniano e redefiniu sua relação com o Ocidente.

Nos meses seguintes, setores do clero consolidaram o controle do novo regime e afastaram antigos aliados da revolução (especialmente grupos de esquerda, nacionalistas e intelectuais) das posições de poder.

Na economia, Rudzit afirma que, depois da revolução, “o petróleo tornou-se a principal fonte de receitas públicas, enquanto o governo ampliou sua presença em setores-chave da economia por meio de empresas públicas“. 

Para o professor, a economia iraniana também passou a enfrentar limitações decorrentes de sanções internacionais dos Estados Unidos. “A relação entre o Irã e EUA se deteriorou depois da queda do xá, que era aliado estratégico de Washington na região. A relação tem sido marcada por boicotes econômicos, disputas em torno do programa nuclear iraniano, rivalidades geopolíticas no Oriente Médio”, disse.

Segundo Rudzit, “o governo passou a promover uma forte islamização da vida pública”. Leis consideradas incompatíveis com a nova ordem religiosa, como a Lei de Proteção à Família (1967), que ampliava direitos das mulheres no casamento, foram revogadas.

Comitês revolucionários ligados às mesquitas passaram a patrulhar as ruas, fiscalizando códigos de vestimenta e comportamento e perseguindo opositores. Ao mesmo tempo, foi criada a milícia que daria origem à Guarda Revolucionária Islâmica, responsável por proteger a revolução e conter possíveis ameaças internas.

Culturalmente, a sociedade tornou-se mais complexa e urbanizada, combinando normas religiosas do regime com transformações sociais típicas de uma sociedade moderna e conectada. No plano político, embora o sistema imponha limites institucionais à competição eleitoral e à participação de certos grupos, eleições para cargos como presidente e parlamento continuam mobilizando amplos setores da população“, diz Rudzit.

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