Um grupo de 72 empresas se tornou "penetra" na Faria Lima e acessou o mercado de capitais pela primeira vez em 2025 e levantou R$ 11,6 bilhões em emissões de dívida - de debêntures a CRIs e notas comerciais. Desconhecidas do grande público, essas companhias representam um movimento mais estrutural de ampliação do mercado de renda fixa corporativa e a redução da dependência apenas do crédito bancário.

Levantamento exclusivo feito pelo Banco BV a pedido do NeoFeed, com base em dados da Anbima, mostra que, entre as estreantes, 32 emissões foram de notas comerciais, 15 de debêntures, 12 de CRIs, seis de CRAs e o restante via FIDCs ou estruturas híbridas. Em 2024, 59 empresas haviam estreado no mercado, movimentando R$ 10,6 bilhões.

O tíquete médio caiu de R$ 182 milhões para R$ 161 milhões, indicando que operações menores começam a ganhar espaço - e em diferentes formatos. As emissões foram rastreadas por CNPJ para garantir que se tratavam do primeiro acesso ao mercado.

“O aumento da profundidade do mercado de renda fixa ampliou o apetite dos investidores para novos nomes e levou à compressão de spreads, o que incentivou muitas empresas a captar pela primeira vez via mercado de capitais em 2025”, afirma Marcos Garcia, diretor de mercado de capitais do BV.

No recorte setorial, o agronegócio lidera como setor que mais levou empresas pela primeira vez ao mercado nos últimos dois anos: 10 em 2024, totalizando R$ 2,6 bilhões, e 14 em 2025, com R$ 1,9 bilhão.

Quando o critério é volume, o varejo foi quem mais emitiu pela primeira vez em 2025 com R$ 3,98 bilhões do total das estreantes, à frente de agronegócio e engenharia, com R$ 1 bilhão.

O movimento ocorre em um contexto mais amplo. Em 2025, o volume de financiamento via emissão de dívida por empresas não financeiras superou, pela primeira vez, o total de empréstimos concedidos pelo sistema financeiro, segundo a Anbima com base em dados do Banco Central.

Grande parte dessa mudança é explicada pelo crescimento da base investidora. Nos últimos dois anos, os fundos de renda fixa captaram mais de R$ 340 bilhões. Com recursos para alocar e juros elevados por um período prolongado, os gestores passaram a buscar novos emissores.

“Com os juros altos por muito tempo, os fundos de renda fixa captaram muito e precisaram colocar os recursos para trabalhar. Com todo esse apetite para crédito, os papéis mais óbvios pagam menos. Isso abre espaço para novos nomes”, diz Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima.

Embora o custo inicial possa ser semelhante - ou até ligeiramente superior - ao crédito bancário, as empresas buscam no mercado prazos mais longos, diversificação de funding e construção de histórico para futuras emissões.

Engrenagem do primeiro acesso

O avanço também reflete uma estratégia ativa dos coordenadores. O BV, por exemplo, tem estruturado emissões híbridas, em que parte da operação permanece no balanço do banco e parte é distribuída ao mercado. “Para o investidor, a presença do coordenador comprando junto funciona como um selo de conforto”, afirma Garcia.

O banco coordenou ofertas que representaram quase 10% do total de operações do mercado em 2025, ante pouco mais de 5% no ano anterior, praticamente dobrando o volume financeiro destinado a novos emissores.

As notas comerciais ganharam protagonismo. Um exemplo de operação do BV no ano passado foi a emissão de uma nota comercial de R$ 40 milhões para o Grupo Vidal, ecossistema empresarial por trás da Transvidal, focado em logística e transporte rodoviário de cargas.

“São o instrumento mais simples de emitir e o mercado passou a comprar mais. Se em 2021 foram nove operações, em 2025 foram 231”, diz Felipe Pretz, head de originação e DCM do BV.

Paralelamente, boutiques de DCM ampliaram a oferta para o middle market, especialmente empresas com faturamento de até R$ 1 bilhão — um segmento historicamente pouco atendido pelos grandes bancos.

A AVIN, que tem o BTG Pactual como sócio, já estruturou mais de R$ 2 bilhões em emissões, majoritariamente de nomes estreantes. Um dos casos foi a Regera & Co, que captou R$ 15,3 milhões em debênture incentivada para financiar uma usina de biometano no Paraná, a IPCA + 12% ao ano, atraindo cerca de 400 investidores pessoa física.

“Operações pequenas não se pagam para grandes bancos. Nosso foco é esse cliente que precisa de apoio para entrar no mercado”, afirma Lucas Alves, head de corporate & investment banking da AVIN.

No mercado imobiliário, a Monte Bravo, que tem a XP como sócia, concentrou sua atuação em CRIs. Nos últimos dois anos, participou de quase R$ 2,4 bilhões em emissões, sendo R$ 406 milhões de empresas que acessaram o mercado pela primeira vez via CRIs.

“O mercado imobiliário foi financiado por muito tempo pela poupança, que encolheu. Os CRIs passaram a ocupar esse espaço, com forte apetite de investidores por papéis isentos”, diz André Costa, sócio e head de investment banking & corporate solutions da Monte Bravo.

O que vem pela frente

Para 2026, a expectativa é de manutenção do dinamismo, com a queda da Selic tornando o custo de captação mais acessível. Ao mesmo tempo, o calendário eleitoral pode elevar a volatilidade e postergar decisões.

O BV afirma ter no pipeline alguns nomes novos para emissão, mas acredita que o cenário eleitoral traz mais volatilidade. Já a Monte Bravo afirma que está nesse momento apoiando uma companhia sucroalcooleira em seu primeiro acesso ao mercado de capitais e também tem outros nomes estudando a possibilidade.

Outro impulso pode vir do chamado regime Fácil da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que entra em vigor em março e cria um atalho regulatório para companhias com receita bruta anual inferior a R$ 500 milhões acessarem o mercado com menos custo e burocracia.

“Lá fora, o mercado de capitais é o principal funding das empresas. No Brasil, ainda é o crédito bancário. Mas estamos avançando de forma robusta para tornar o sistema mais profundo e democrático”, afirma Maranhão, da Anbima.

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