Painéis com as histórias de pessoas escravizadas haviam sido retirados de parque na FiladélfiaPainéis com as histórias de pessoas escravizadas haviam sido retirados de parque na Filadélfia

Justiça dos EUA cita “1984” para proibir Trump de vetar exposição

2026/02/18 15:11
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A juíza federal dos Estados Unidos Cynthia Rufe ordenou que o governo do presidente do país, Donald Trump (Partido Republicano), volte a expor uma mostra sobre escravidão que havia sido retirada de um museu no Parque Nacional Histórico da Independência,  em Filadélfia, na Pensilvânia. A decisão foi emitida na 2ª feira (16.fev.2026), depois de a cidade processar o governo federal pela remoção dos painéis expositivos do parque sem consulta prévia.

Segundo a CNN, a decisão judicial de Rufe citou o romance distópico “1984”, de George Orwell, publicado pela 1ª vez em 1949. A magistrada escreveu o seguinte: “Como se o Ministério da Verdade em ‘1984’, de George Orwell, agora existisse, com seu lema ‘Ignorância é Força’, este Tribunal deve determinar se o governo federal tem o poder que alega ter –de dissimular e desmontar verdades históricas quando tem algum domínio sobre fatos históricos. Não tem”.

A disputa teve início em janeiro, quando grandes painéis de exibição foram retirados da Casa do Presidente. O espaço museológico preserva a história do local onde viveram os presidentes George Washington (1789-1797) e John Adams (1797-1801), 1º e 2º presidentes dos EUA, respectivamente. A cidade, então, processou a administração federal logo depois, argumentando que o governo tinha obrigação legal de consultar a Filadélfia antes de ordenar as alterações.

Indicada pelo ex-presidente republicano George W. Bush (2001-2009), Rufe baseou sua decisão no fato de que o Congresso aprovou uma legislação que “especificamente limitou” a autoridade do Departamento do Interior para “alterar ou controlar unilateralmente” o parque.

“O governo pode transmitir uma mensagem diferente em outro lugar se assim o desejar, mas não pode fazê-lo na Casa do Presidente até que siga a lei e consulte a cidade”, afirmou a juíza.

O Departamento do Interior informou à CNN em comunicado na 3ª feira (17.fev) que discorda da decisão e planeja recorrer.

O presidente do Conselho Municipal da Filadélfia, Kenyatta Johnson (Partido Democrata), celebrou a decisão em um comunicado publicado nas redes sociais. “A história negra é história norte-americana, e não deixaremos Trump apagar nossa história”, escreveu. O governador da Pensilvânia, Josh Shapiro (Partido Democrata), havia criticado anteriormente a remoção da exposição, acusando a Casa Branca de “branqueamento” histórico.

O governo Trump vem intensificando esforços para remover de instituições culturais materiais que conflitem com as visões do presidente antes do 250º aniversário dos Estados Unidos em 4 de julho deste ano.

Em março de 2025, Trump assinou um decreto acusando a administração anterior, de Joe Biden (Partido Democrata), de promover uma “ideologia corrosiva”. No texto, ele ordenou que o secretário do Interior removesse conteúdos que depreciassem “inadequadamente norte-americanos do passado ou do presente”. Eis a íntegra do decreto, em inglês (PDF – 91 KB).

Desde então, a Casa Branca iniciou revisão dos museus e exposições do Instituto Smithsonian para eliminar o que considera propaganda anti-EUA. O instituto é federal e administra museus, centros de pesquisa e o Zoológico Nacional.

“O povo norte-americano não terá paciência com nenhum museu que seja reticente quanto à fundação da América ou que fique desconfortável em transmitir uma visão positiva da história norte-americana –uma que seja justificadamente orgulhosa das realizações e do histórico do nosso país”, escreveram funcionários da Casa Branca ao Smithsonian em dezembro.

No ano passado, a ACMB (Comissão Americana de Monumentos de Batalha) retirou uma exposição que comemorava as contribuições de soldados negros da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e destacava a discriminação que enfrentaram.

A CNN informou que entrou em contato com a Casa Branca e com a prefeita da Filadélfia, Cherelle Parker (Partido Democrata), para comentar a decisão judicial, mas não havia obtido resposta até o momento da publicação.

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