Presidente foi aplaudido ao afirmar que falta de integração torna países mais frágeis; discurso foi realizado no Fórum Econômico no PanamáPresidente foi aplaudido ao afirmar que falta de integração torna países mais frágeis; discurso foi realizado no Fórum Econômico no Panamá

Lula critica divisão na América Latina e “intervenções militares ilegais”

2026/01/29 00:18

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta 4ª feira (28.jan.2026) a divisão política da América Latina e defendeu uma integração regional pragmática, sem interferências externas. “Essa é a única doutrina que nos convém: seguir divididos nos torna todos mais frágeis”, afirmou Lula, sendo aplaudido pelos presentes.

O discurso foi feito na abertura do Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, promovido pelo CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe), na Cidade do Panamá. 

A fala ocorre em meio à ofensiva norte-americana na Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda). No evento, Lula a criticou de forma direta: “A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós”, disse o presidente brasileiro.

O Planalto acompanha com preocupação a nova estratégia de segurança dos EUA, lançada em dezembro. O plano retoma princípios da Doutrina Monroe. com o reforço da influência norte-americana no Hemisfério Ocidental. É um sinal de alerta para o governo brasileiro.

Durante o discurso, o petista contextualizou sua fala com críticas às tentativas de divisão do continente em zonas de influência. O presidente mencionou momentos em que Washington foi “um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento”.

“A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos”, declarou.

Citou a política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt, que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia. Lula também listou as 4 liberdades defendidas por Roosevelt: expressão, culto, contra privações e contra o medo.

“Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”, afirmou o presidente. “E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado.”

Crítica à paralisação da integração

Para o presidente, o ambiente regional passou a oferecer menos instâncias efetivas de articulação política. Ele fez um diagnóstico duro sobre o estado atual da integração latino-americana que deu guinada à direita. Segundo ele, a região vive “um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração”.

Lula citou o fracasso da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) em produzir declarações conjuntas. “A CELAC não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região”, afirmou.

O presidente mencionou que a Unasul, que funcionou entre 2003 e 2014, “sucumbiu ao peso da intolerância que impediu a convivência de visões diferentes”. Para Lula, a região voltou a ser “dividida, mais voltada para fora do que para si própria”.

Defesa de modelo próprio

Lula defendeu que a América Latina desenvolva um modelo próprio de integração, sem copiar estruturas de outras regiões. “Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, mas sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais”, disse.

O presidente listou os ativos da região que poderiam ser mobilizados: potencial energético, produção de alimentos, recursos hídricos, biodiversidade, minerais críticos para transição energética e um mercado de 660 milhões de pessoas.

Lula também citou vantagens políticas. “Não vivenciamos graves conflitos religiosos ou culturais e contamos com uma predominância de governos eleitos democraticamente”, afirmou.

Leia outros assuntos abordados por Lula em seu discurso:

  • indireta a Donald Trump“O uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós”;
  • integração regional“Essa é a única doutrina que nos convém: seguir divididos nos torna todos mais frágeis”;
  • retrocesso da integração“Vivemos um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração. Voltamos a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria”;
  • fracasso da Celac“A CELAC não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região”;
  • Europa“Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, mas sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais”;
  • ativos regionais“Contamos com potencial energético, possuímos variadas condições para produção de alimentos, abrigamos a maior floresta tropical do planeta, mais de 1/3 das reservas de água doce do mundo”;
  • mercado regional – “Somos um mercado consumidor expressivo de 660 milhões de pessoas. Não vivenciamos graves conflitos religiosos ou culturais e contamos com uma predominância de governos eleitos democraticamente”.

Lula no Panamá

O Fórum reúne chefes de Estado da região, incluindo os presidentes da Colômbia, Bolívia, Equador e Guatemala, além do presidente eleito do Chile, José Antonio Kast. Após o discurso, Lula terá reunião bilateral com Mulino, no Palácio de las Garzas.

Assista à íntegra do discurso de Lula (48min32):

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