O Federal Reserve iniciou um ciclo de alívio monetário em setembro de 2024, trazendo a taxa básica de 5,5% para o patamar atual entre 3,75% e 3,5%. Mas em vez de acompanhar esse movimento, a curva dos juros longos empinou.
O que explica esse “mistério”?
Torsten Slok, o economista-chefe da Apollo Global Management, destrinchou os números do mercado da dívida federal dos EUA e as projeções para a necessidade de financiamento do Governo americano.
Uma de suas conclusões é que os juros de mercado não cederam por uma questão de excesso de oferta e demanda. “A crescente emissão de títulos do Tesouro está pressionando as taxas de longo prazo para cima,” afirmou Slok.
Em outras palavras, o Governo americano está gastando muito e encontrando resistência para vender os papéis prefixados mais longos.
Ao mesmo tempo, a pressão nas taxas futuras pode ser uma reação ao aumento da percepção de risco em razão das ameaças de Donald Trump de interferir nas decisões do Fed. Para se defenderem, os investidores dão preferência aos papéis mais curtos.
“Se o mercado acha que o Fed está cortando as taxas por razões políticas, isso exerce pressão ascendente sobre as expectativas de inflação – e, em última análise, sobre as taxas de longo prazo, o que também acentua a inclinação da curva,” disse o economista.
Apesar das reduções na taxa básica de juros, o yield do Treasury de 10 anos – a principal referência do mercado global – não cedeu e está ao redor de 4,2%. Além disso, abriram ainda mais os spreads dos Treasuries de 30 anos em relação aos títulos de 10 anos: a diferença, que era de 20 bps em janeiro passado, agora está em 70 bps, um nível não visto desde 2021.
Para evitar um aumento ainda maior no custo de carregamento de sua dívida, o Tesouro ampliou a venda de T-Bills – os títulos mais curtos, com vencimento de um ano ou menos – que já respondem por 85% da emissão bruta e 22% do estoque.
Ou seja: a liquidez está ficando empoçada no curto prazo, e a ponta longa está abrindo. Brazil feelings.
Os EUA hoje têm um déficit fiscal primário ao redor de 5% do PIB – um dos maiores entre as nações desenvolvidas – e as projeções indicam que não deverá haver redução significativa pelos próximos dez anos, sobretudo por causa da estimativa de aumento dos gastos sociais.
Excluindo o custo da dívida, as despesas com Previdência Social, Medicare e Medicaid já consomem 70% das despesas obrigatórias, e são gastos que tendem a subir em razão do envelhecimento da população.
O problema é que o gasto financeiro também está em alta.
O pagamento de juros consome 14% do Orçamento federal. Antes da pandemia, a despesa consumia em torno de 7% da receita. Na atual trajetória, o percentual irá a 20% em 2055.
“A despesa líquida média diária com juros do governo federal, incluindo fins de semana, é atualmente de US$ 3,5 bilhões,” disse Slok.
Trump e sua equipe não cumpriram até o momento a promessa de conter a deterioração fiscal. Muito pelo contrário.
O projeto chamado One Big Beautiful Bill Act, aprovado no ano passado, reduziu impostos e ampliou gastos, elevando em US$ 5 trilhões – trilhões – a projeção para a dívida pública ao longo da próxima década.
A demanda pelos títulos públicos americanos permanece elevada, mas isso não significa que ela tem acompanhado, na mesma velocidade, o aumento na colocação de papéis.
O percentual de Treasuries nas mãos de estrangeiros caiu a 25% do total, contra 33% há uma década. A redução foi puxada pelas vendas da China.
Slok destacou que a inflação implícita nos títulos públicos tem se mantido acima da meta do Fed, de 2%. A expectativa de mercado, que chegou a disparar para quase 4% no ano passado, está agora em 2,6%, devolvendo parte da melhora ocorrida no final do ano passado.
A deterioração nas expectativas complica o cenário levado em consideração pelo Federal Reserve nas decisões sobre os juros. A próxima reunião será nesta quarta-feira – e apesar das incessantes pressões de Trump, a expectativa é de manutenção na atual faixa, entre 3,5% e 3,75% ao ano.
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