Dados de dois levantamentos divulgados recentemente pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, trazem revelações surpreendentes sobre o aumento da desigualdade de riqueza no país e do padrão de consumo da população, que reflete características particulares da economia americana.
A primeira delas aponta que a riqueza total detida pelos americanos mais ricos está agora no nível mais alto desde a Segunda Guerra. A segunda revela que os 20% mais ricos da população são responsáveis por 59% de todos os gastos do consumidor – dado atribuído à valorização do mercado de ações.
A disparidade entre ricos e pobres nos EUA não chega a ser novidade, mas vem se tornando mais acentuada desde a pandemia. Um dos levantamentos do Fed indica que esse fosso está crescendo como não se via desde a metade do século passado. De acordo com dados do terceiro trimestre de 2025, o 1% mais rico das famílias americanas controlava 31,7% da riqueza do país. Isso equivalia a US$ 55 trilhões, quase o mesmo que os 90% mais pobres juntos.
Outros dados do Fed, compilados pela consultoria Moody’s Analytics, apontam o crescimento do que os especialistas chamam de economia em forma de K - onde os ricos continuam a prosperar, enquanto o resto da população fica para trás. É uma divergência que se assemelha aos dois braços da letra K.
Nesse levantamento, a Moody’s revela que os 20% ricos estão impulsionando o consumo de forma crescente – esse grupo é responsável por 59% de todos os gastos do consumidor. Enquanto isso, apenas 41% dos gastos do consumidor vêm dos 80% mais pobres da população, um recorde de baixa.
De acordo com Mark Zandi, economista-chefe da Moody's, a valorização do mercado de ações – que registrou fortes ganhos no ano passado, em grande parte graças aos investimentos em inteligência artificial – ampliou a crescente disparidade entre esses dois grupos.
"A economia está se sustentando, por pouco, nas costas dos mais ricos", adverte Zandi. “Se o mercado de ações despencar, o que afetaria os mais ricos, então uma recessão será mais provável do que improvável.”
Segundo ele, as famílias mais ricas tendem a se beneficiar mais dos mercados em alta porque uma parcela maior de seu patrimônio está investida em ações e outros títulos. Por outro lado, as famílias de renda média tendem a ter seu patrimônio investido em suas casas, e o crescimento dos preços dos imóveis tem desacelerado.
“Os americanos de baixa renda estão enfrentando dificuldades com dívidas cada vez maiores”, diz Zandi.
Aposta em ações
O mercado de ações é um tipo de investimento adotado por 62% dos adultos americanos – cerca de 162 milhões de pessoas -, seja diretamente (compra de ações individuais) ou indiretamente (fundos, ETFs e planos de aposentadoria). Embora mais da metade da população americana possua ações, elas não estão distribuídas igualmente - o 1% mais rico detém mais da metade desses papéis.
Isso explica os 20% mais ricos terem acumulado mais ganhos com a valorização das ações. O crescimento desigual dos salários também contribui para essa disparidade. Os americanos de renda mais alta viram seus salários crescerem a um ritmo mais acelerado do que os de outros grupos de renda.
Dados do Bank of America mostram que o crescimento salarial das famílias de renda mais alta foi de 3% em dezembro de 2025, em comparação com 1,5% e 1,1% para as famílias de renda média e baixa, respectivamente.
De acordo com Zandi, essa crescente desigualdade ajuda a explicar a deterioração da confiança do consumidor entre a maioria dos americanos nos últimos anos. E também justifica, segundo ele, a crescente desconexão social nos EUA — e o aumento de visões extremistas em ambos os lados.
“Existe um grupo enorme de pessoas cujo padrão de vida não mudou”, constata o economista da Moody’s. "O que cresceu nesse grupo foi só a raiva."


