"Escrevo romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei. Você provavelmente sabe disso, mas estou dizendo porque não me sinto confortável para contar isso para todos."
Rachel Reid — cujo nome verdadeiro é Rachelle Goguen — escreveu estas palavras no seu blog quatro meses atrás. Agora, a adaptação do seu livro "obsceno", como ela descreve, é uma das séries mais comentadas da TV: Rivalidade Ardente (Heated Rivalry, no original, em inglês).
Seus astros já apareceram no Globo de Ouro, nos principais podcasts e talk shows de fim de noite e em um fluxo aparentemente interminável de edições feitas por fãs nas redes sociais. Com isso, Reid ficou sem ter onde se esconder.
Mas a autora canadense da província de Nova Escócia conta à BBC que não tem mais "por que ficar envergonhada".
"As pessoas falam abertamente que adoram a série", ela conta. "O constrangimento é não gostar dela."
Sexo não falta em Heated Rivalry. A série acompanha o relacionamento entre dois astros rivais do hóquei sobre o gelo. Ela se baseia no livro Rivalidade Ardente, o segundo da série de romances de Reid intitulada Game Changers.
Reid publicou seus livros inicialmente de forma anônima na internet, como se fossem fan fiction.
"Achei que eles fossem inadaptáveis", confessa ela.
Mas são poucas as diferenças entre o livro e a adaptação para a TV. "Acho que nunca vi uma adaptação tão fiel", segundo a autora.
Apesar da sua ilustração sincera dos relacionamentos LGBT e sua representação no esporte, houve quem menosprezasse sua história e a rotulasse como "a série do hóquei gay". Mas Reid não se preocupa com isso.
"Eu me sinto muito bem quanto a isso. Há uma grande comunidade envolvida — todos esses eventos, exibições em grupo, raves — a série tem essa ótima energia entre as pessoas."
"Se você gosta dela, provavelmente está do lado certo em muitas questões."
Uma dessas exibições em grupo em Londres gerou silêncio em um bar lotado, onde as pessoas aguardavam o início do primeiro episódio na sua noite de lançamento no Reino Unido, no início do janeiro.
Um forte "psiu!" soou quando o novato canadense Shane Hollander (um dos protagonistas, agora com forte popularidade) apareceu pela primeira vez na tela. O público composto principalmente por espectadores mais jovens passou a ouvi-lo com atenção.
Mais tarde, surgiram gritos e aplausos. Perto de Shane, em uma fileira de chuveiros coletivos, estava o confiante Ilya Rozanov, da Rússia. Os dois homens estavam nus, como mostra a câmera com algum detalhamento.
Mas os espectadores rapidamente destacaram que o sexo era uma forma de ilustrar seu relacionamento conduzido em fogo brando, desenvolvido com encontros secretos e mensagens de texto sigilosas ao longo de oito anos de rivalidade pública no esporte.
"Vim assistir esperando que fosse algo do tipo de Cinquenta Tons de Cinza", conta Joe Leonard, um dos organizadores do evento Projeto Queer do Oeste de Londres.
"Você fica um pouco surpreso assistindo aos primeiros episódios", confessa ele. "Mas, no final, você se senta com lenços para enxugar as lágrimas... é uma história muito, muito bonita."
Outra fã da série, Alana, de 21 anos, destaca que "Algumas pessoas estão focando apenas no aspecto íntimo... mas elas não dizem o mesmo sobre Bridgerton ou outras séries que mostram intimidade entre pessoas hétero. Qual a diferença?"
Em uma sala dividida quase igualmente entre homens e mulheres, chama atenção a popularidade da série entre as mulheres.
Esta peculiaridade já gerou debates na internet, em plataformas como o Reddit e o TikTok.
"Não acho novidade que as mulheres se interessem em ficção queer, mesmo mulheres heterossexuais", afirma Bethan Smith, de 26 anos.
"Acho que, só porque se tornou tão popular, as pessoas se perguntam 'por que as mulheres gostam disso?' Onde será que elas estavam nos últimos tempos?'"
A autora tem uma opinião simples a este respeito: "Obviamente, os livros têm muitas mulheres leitoras porque são elas que leem romances, que leem ficção em geral."
"Agora, com a série, ganhamos uma legião de fãs muito maior e mais diversificada. E, sim, muitos homens, o que é realmente estimulante."
Combinar esporte e romance pode parecer incomum para quem não está acostumado com esse tipo de ficção. Mas, para alguns leitores, tudo faz sentido.
Kayleb, de 23 anos, afirma ter lido diversos "romances no esporte" e que Heated Rivalry foi um deles. "Li alguns romances passados na Fórmula 1", ele conta.
Kayleb se refere a um subgênero em crescimento, de romances ambientados no mundo esportivo, como no futebol, pugilismo e baseball.
A agente literária Saskia Leach destaca que esse subgênero "disparou nos últimos quatro a cinco anos".
"Certamente, é o subgênero de romance inovador dos anos 2020", segundo ela. Por isso, o sucesso de Heated Rivalry não é uma surpresa.
Aimee Cummings dirige a livraria Love Stories em Cardiff, no Reino Unido. Ela concorda que existe "enorme demanda" para esses livros, "embora sejam um nicho dentro de um nicho".
"Nosso primeiro pedido de cliente foi pelo romance ambientado no rugby Binding 13: Marcação Cerrada no Amor, da escritora Chloe Walsh [Ed. Bloom Brasil, 2025]. E, desde o primeiro dia, tivemos pessoas pedindo Rivalidade Ardente."
Mas o hóquei sobre o gelo é mais do que um pano de fundo no mundo de Reid.
A autora conta que escreveu seus livros "para trabalhar muitos dos meus sentimentos sobre a misoginia desenfreada, a homofobia e a violência" no esporte que ela admira.
Não há jogadores abertamente gay em atividade na Liga Nacional de Hóquei norte-americana (NHL, na sigla em inglês), segundo a rede de rádio e TV pública canadense CBC. E a série reacendeu a discussão sobre a representatividade no esporte.
Reid afirma que ninguém da NHL entrou em contato com ela desde a estreia da série nos EUA e no Canadá, no final de novembro, "mas muitas pessoas do mundo do hóquei fizeram contato... pessoas que amo e respeito e é tudo o que importa para mim".
É claro que a série, criada pela plataforma de streaming canadense Crave, promoveu a venda dos livros de Rachel Reid.
Nos EUA, Rivalidade Ardente, publicado pela primeira vez em 2019, e vários outros romances da autora chegaram à lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times no início de dezembro.
Reid anunciou, em meados de janeiro, um novo romance Hollanov — com os personagens Shane Hollander e Ilya Rozanov — chamado Unrivaled ("Imbatíveis", em tradução livre).
Seus outros títulos chegam pela primeira vez às livrarias do Reino Unido no dia 20 de janeiro. Até então, eles só eram vendidos como e-books no país. Recentemente, eles entraram na lista dos mais vendidos da Amazon.
A maior cadeia de livrarias britânica, a Waterstones, declarou que os pedidos diários da série de livros impressa, em pré-venda, "aumentaram em cerca de 700%, semana após semana", desde o início de janeiro. Rivalidade Ardente concentra a maior parte dos pedidos.
A editora HarperCollins afirma que precisou imprimir diversos lotes novos, além do originalmente planejado, para atender à demanda.
Para Reid, a esperança é que seus livros inspirem histórias de amor LGBT mais positivas.
"Simplesmente não há muitas séries com final feliz, com a alegria queer."
"Talvez não precisemos matar um deles antes do fim", ela brinca. "Seria uma ótima mudança."
A edição em português do livro Rivalidade Ardente tem lançamento previsto pela Editora Alt para 5 de fevereiro.
A série Rivalidade Ardente está disponível no Brasil na HBO Max.



Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Escola de Gerontologia Leonard Davis da Universidade do Sul da Califórnia (USC), dos Estados Unidos, indica q