O governo do Ceará está de olho em um mercado que pode transformar o estado em referência nacional: a mineração de Bitcoin. A Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (ETICE), estatal responsável por soluções de tecnologia no estado, incluiu a mineração de criptomoedas entre suas prioridades estratégicas para 2026, sinalizando uma aposta audaciosa na economia digital.
A iniciativa faz parte de um plano maior de diversificação dos negócios baseados em tecnologia no Ceará, que já é considerado um polo internacional de data centers. Hugo Figueirêdo, presidente da ETICE, confirmou em entrevista ao jornal O Povo que o estado está mobilizado para captar empresas do setor, tanto para a capital Fortaleza quanto para o interior.
O principal trunfo do Ceará para atrair mineradoras de Bitcoin é o Cinturão Digital, uma rede de fibra óptica com mais de 6 mil quilômetros de extensão que corta o estado. Atualmente, cinco dos 12 pares de fibra óptica disponíveis estão inativos, e três deles poderão ser ativados especificamente para atender data centers instalados no interior.
A conexão de alta velocidade, que será ampliada para 400 gigabits por segundo em 2026, constitui um diferencial competitivo importante. Figueirêdo destacou que o estado possui energia em abundância, recurso essencial para operações de mineração, que demandam alto consumo elétrico e capacidade de processamento contínuo.
Fortaleza já abriga 14 data centers, enquanto Macaraú conta com dois. Todos possuem infraestrutura de ponta e certificação TIER III, que garante alto desempenho e segurança no processamento de dados. A cidade ainda se destaca por possuir 16 cabos submarinos, uma das maiores conexões digitais do mundo.
O planejamento estratégico da ETICE une mineração de criptomoedas a outras duas verticais tecnológicas: processamento de dados para sistemas de inteligência artificial e expansão de data centers. Segundo Figueirêdo, a infraestrutura necessária para minerar Bitcoin é tecnicamente similar à exigida para sistemas de IA, já que ambas demandam alta capacidade de processamento.
A expectativa é que os novos negócios gerem contratos com empresas privadas na ordem de milhões de reais. O presidente da ETICE afirmou que a empresa avaliará as necessidades de cada cliente para construir soluções personalizadas, além de desenvolver produtos internos com inteligência artificial.
A iniciativa também tem um objetivo financeiro claro: tornar a ETICE autossustentável. Em 2025, o faturamento da empresa girou em torno de R$ 500 milhões, mas foi necessário um aporte de R$ 50 milhões do governo estadual para cobrir um déficit estimado em R$ 10 milhões.
Para reverter esse quadro, a estatal passa por uma reestruturação administrativa e financeira. A captação de negócios privados nas novas verticais tem como meta fazer 2026 ser o primeiro ano superavitário da história da empresa, permitindo inclusive a distribuição de dividendos.
A ETICE, que atende diversas secretarias estaduais e órgãos como o Tribunal de Justiça e o Ministério Público, presta serviços que vão desde reconhecimento facial na Arena Castelão até armazenamento em nuvem para outros estados, como o Maranhão. Agora, a empresa busca ampliar seu portfólio com soluções voltadas para o mercado de criptomoedas.
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, que abriga a Zona de Processamento de Exportação (ZPE), é apontado como localização estratégica para atrair grandes data centers. A região oferece vantagens logísticas e fiscais que podem interessar empresas internacionais do setor.
Figueirêdo ressaltou que o Ceará tem potencial para receber investimentos não apenas na região metropolitana, mas especialmente no interior. A aposta é que a infraestrutura digital já instalada, combinada com a disponibilidade energética, crie condições favoráveis para que empresas de mineração de Bitcoin e inteligência artificial se estabeleçam em municípios menores.
A iniciativa do governo cearense está alinhada a uma tendência nacional de reforçar a soberania digital e buscar novas fontes de receita através da tecnologia. O Brasil ainda não tem participação relevante no mercado global de mineração de Bitcoin, e estados como o Ceará veem nesse nicho uma oportunidade de geração de emprego, renda e atração de investimentos estrangeiros.
A ETICE já possui parcerias internacionais, incluindo um acordo de financiamento com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que prevê aportes totais de R$ 30 milhões até 2027. Esse recurso pode ajudar a viabilizar as adaptações necessárias na infraestrutura para receber as operações de mineração.
No Brasil, a Tether é uma das poucas empresas que já confirmou planos de mineração de Bitcoin com uso de energia renovável. O movimento do Ceará pode abrir caminho para que outras companhias nacionais e internacionais vejam o país como um destino viável para suas operações.
Se os planos se concretizarem, o Ceará poderá se consolidar não apenas como polo de data centers, mas também como referência em tecnologias emergentes, incluindo blockchain e inteligência artificial. A aposta é alta, mas a infraestrutura já existe. Agora, resta saber se as empresas do setor vão aceitar o convite.
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